Publicado por: intrigando | 6 de maio de 2010

Aspectos psico-sociais da invisibilidade social


Fernando Braga da Costa, doutor em psicologia

A invisibilidade pública é uma ferida social que abrange vários aspectos nas relações entre dominado e dominador, empregado e sociedade. Suas consequências provocam uma série de complexos psicológicos, tema principal e base de estudo do Dr. Fernando Braga da Costa em seu livro “Homens invisíveis – Relatos de uma humilhação social”, livro que serve como referência dos nossos estudos práticos sobre os aspectos psicológicos como consequência de tal ferida social.

A humilhação pública pode calar o mais bravo dos homens. Ao invés de gritar, urrar, espernear ele pode preferir entre (ainda que inconscientemente) não responder ao oponente. Dar a voz à dor que se sente é relacionar-se, manter contato com alguém, estar em alguma medida irmanado compreendido sob as mesmas bases espirituais do interlocutor (…) (…) Silenciar pode ser a única forma de evitar exposição direta à insensibilidade, não falar língua que não é sua, não se contaminar pela estupidez. O silêncio, entretanto refreando gestos e protestos fazem acumular violências sem saída, envenena, embrutece (DA COSTA, 2004, p. 210-211).

Segundo o professor e pesquisador do Departamento de psicologia social e do trabalho da Universidade de São Paulo, José Moura Gonçalves Filho, a invisibilidade pública se resume em diversas manifestações políticas expressas em um sofrimento político, herdadas de várias gerações e que começaram “por golpes de espoliação e servidão, que caíram pesados sobre nativos e africanos”. Tal subordinação remete a uma exclusão política que transforma a subordinação em “um dos mais radicais sofrimentos proletários” (WEIL, 1996, p. 53), limitando-os a uma condição de subordinação e exclusão que não admite intervenção social.

As queixas dos trabalhadores a esse respeito são freqüentes, mas pouco organizadas. Normalmente, o que dizem não se projeta além das fronteiras do grupo de trabalho. Ao que tudo indica, não contam com autoridade perante os seus “superiores”. Suas reclamações, quando não caem no vazio,   podem provocar resposta rude do patrão. Os garis têm medo (DA COSTA, 2004, p. 182).

Comportamentos psicológicos são relatados pelo Dr. Fernando Braga da Costa em sua obra e constatados nas ruas em pesquisa de campo por esta equipe. Tais observações refletem no comportamento exacerbado de uma classe servil mecanizada e acostumada aos olhares obnubilados de uma sociedade que não admite enxergar uma classe trabalhadora e oprime o ideal psicológico dos servis.

Em campo, consideramos admitir que os trabalhadores expressam um comportamento de submissão, olhares fixos para baixo, mantendo-se com essa postura e o semblante fechado durante o tempo em que permaneciam em atendimento e mudando essencialmente o comportamento diante de colegas de trabalho em conversas paralelas, dentro da área reservada para os mesmos. Como relata também o professor Fernando Braga em seu livro.

Dona Zilda leva o corpo sempre curvado, absorvida nos mínimos detalhes de seu serviço, puxada para o chão. Quem passa pela faxineira, mal consegue ver seu rosto.  Notei que ficavam sem resposta os cumprimentos que eu lhe dirigia. Mesmo diminuindo o passo, voltando o corpo em sua direção, Dona Zilda parecia não me escutar: mantinha-se calada, esfregando o chão. Não se dava conta de que era com ela (DA COSTA, 2004, p. 139).

Ao trabalhador é admitida apenas a função de execução de tarefas, sem planejamento ou sequer escolha de materiais. Local, carga horária ou até mesmo repouso é pensado apenas por trabalhadores de alto escalão, mantendo, assim, um desnível nas funções e nas hierarquias de trabalho e dando ao oprimido, sobretudo fardado, a função de ser apenas um manequim de servil alienado, cruelmente apresentado como cargo e não como pessoa. Fardas condenadas ao remanejamento de tarefas. A farda fala, anda e trabalha por ele.

O pedreiro, trabalhador de construção civil, tem em seu cargo um termo comum utilizado como adjetivo pejorativo para diminuir ou reduzir um indivíduo de alto escalão. Trabalhador braçal, que junto com o servente de pedreiro tem em seu campo de trabalho o cargo mais baixo na hierarquia do setor de construção. Geralmente com pouco nível de escolaridade e de cultura suburbana, o pedreiro sabe e sente que é invisível. Não invisível como classificação, mas com o reflexo da humilhação que carrega dentro de si e ao respeito imaculado aos doutores da sociedade.

Cê logo sabe quando o sujeito vem andando, só de ouvir, cê já sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Ó, quando o cabra é peão quase não faz baruio, parece que anda macio. Agora quando o sujeito tem dinheiro ele chega “todo-todo”, empinado e pisando firme, né?! O sujeito segura a pastinha assim com essa mão, fica na ponta do pé e olha assim ó, só por cima da peãozada. O peão fica só escondidinho, né?! Olhando pra baixo (DA COSTA, 2004, p. 225)[1].

Relata Josias, Gari, personagem do livro Homens Invisíveis: relatos de uma humilhação social do prof. Dr. Fernando Braga da Costa.

A farda pode ser considerada como a simbologia da submissão trabalhista. Enquanto altas hierarquias usam roupas formais, trabalhadores braçais usam fardas. Enquanto o seu uso deveria ser para a melhor condição de trabalho e movimento dos trabalhadores, a farda se transforma em um estigma de submissão e controle, sendo ela aplicada apenas aos trabalhadores que são exclusivamente dados à identificação da função e não do ser humano. Um exemplo prático é o que vemos nas ruas, com os garis. Tais trabalhadores não utilizam crachás e são identificados pela farda que usam pela população nas ruas por onde passam fazendo a limpeza.


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